Você entende a ideia antes de ela terminar de ser dita. Lê uma página e já está três passos à frente. E mesmo assim termina o dia exausto, com uma fila de projetos pela metade, cada um abandonado no instante em que deixou de ser desafio. Por dentro, carrega desde sempre a impressão de estar sintonizado num canal que os outros não pegam. Isso tem nome. E não é o que te disseram a vida inteira.
O que costuma marcar o adulto com altas habilidades não é apenas pensar rápido. É a intensidade. A curiosidade que não desliga, a emoção que chega em volume alto, o senso de justiça que dói, o perfeccionismo que trava. Muita gente cresceu ouvindo que era inteligente demais para estar tão mal, como se uma coisa anulasse a outra. Não anula. Às vezes é uma que alimenta a outra.
Um dos modelos mais usados para entender isso é o dos três anéis, proposto por Joseph Renzulli em 1978. Para ele, o potencial costuma emergir do encontro de três fatores atuando juntos: habilidade acima da média, criatividade e envolvimento com a tarefa. Repare que nenhum desses anéis é, sozinho, um número de prova. Altas habilidades são mais um jeito de funcionar do que um diploma de inteligência.
Aqui entra um detalhe que muda a leitura da vida adulta. No Brasil, altas habilidades e superdotação compõem, ao lado das deficiências e dos transtornos do desenvolvimento, o público-alvo da educação especial, conforme a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, de 2008. No papel, é um funcionamento reconhecido, que merece apoio. Na prática, quase ninguém recebeu esse apoio. A maior parte dos adultos de hoje passou pela escola antes de qualquer olhar para o tema, e cresceu achando que o problema era de caráter.
Quando não é reconhecido, esse potencial vira fonte de desconforto. A pessoa se entedia no que basta para os outros, se cobra além do razoável e sente que vive deslocada, sem saber o motivo. Identificar isso adulto não é vaidade nem caça a um selo. É parar de brigar com a própria intensidade e começar a cuidar dela.