
Psiquiatra dedicado à neurodivergência em adultos.
Mais de 14 anos de prática clínica e 6.000+ pacientes atendidos, com foco em autismo, TDAH e altas habilidades na vida adulta, especialmente nos casos que exigem mais do que uma leitura superficial.
Sou o Dr. João Carlos Leitão, médico psiquiatra. Mas antes da formação técnica, fui uma criança que sentia a própria mente funcionando em outro ritmo: o pensamento corria à frente das palavras, a inquietação não dava trégua, a vida social parecia um código que todos liam com facilidade, menos eu. Eu me esforçava o dobro para acompanhar o que parecia simples para os outros, convivendo com uma ansiedade difusa e a sensação persistente de não pertencer. Esta página conta essa história, porque ela explica a forma como eu escuto hoje.
Olhando para trás, os sinais estavam todos ali, só que ninguém, eu inclusive, sabia lê-los. As ideias chegavam em rajadas, conectando-se umas às outras antes que eu terminasse a primeira. Por fora parecia distração; por dentro era o oposto, um excesso de presença, uma cabeça que não desligava. Eu conseguia me concentrar profundamente no que me interessava, a ponto de perder a noção do tempo, e era incapaz de sustentar atenção no que me parecia árido. A vida social era outra camada de esforço: eu observava as pessoas como quem estuda uma língua estrangeira, decorava respostas, ensaiava expressões. O que para a maioria era espontâneo, para mim era trabalho consciente.
Eu funcionava, e funcionava bem em vários aspectos, mas ao custo de um esforço que ninguém via. A sensação de não pertencer não era dramática nem constante; era um ruído baixo e persistente de estar sempre meio fora de sintonia. Hoje sei dar nome a isso. Naquela época, era apenas a forma como a vida era.
Escolhi a Medicina, em boa medida, para entender a minha própria mente. Estudei na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Pernambuco (FCM/UPE) e, na hora de escolher a especialidade, a Psiquiatria foi quase inevitável: era o lugar onde se falava da mente, do comportamento, do sofrimento que não cabe num exame de imagem. Fiz a residência em Psiquiatria no Hospital Ulysses Pernambucano, referência no Nordeste, um ambiente de altíssimo volume e gravidade clínica, onde se aprende rápido a reconhecer crises, manejar medicação e sustentar pessoas em momentos extremos.
Foi ali que comecei a colocar nomes técnicos em experiências que, até então, eu só conhecia por dentro, e foi ali, também, que percebi um limite incômodo. A psiquiatria que eu aprendia ajudava muita gente de verdade: estabilizava uma crise, tratava uma depressão grave, controlava uma ansiedade incapacitante. O que ela nem sempre alcançava era o que vinha antes e o que ficava depois. A pessoa melhorava do episódio e seguia com a sensação de que algo na sua forma de funcionar nunca tinha sido nomeado. Os sintomas eram tratados; a estrutura por baixo deles continuava invisível. Faltava, na escuta, espaço para a história inteira.
Em algum momento, fiz uma avaliação neuropsicológica. O resultado foi, ao mesmo tempo, um alívio e um sentido novo: havia uma explicação para o que eu sempre tinha vivido. Eu sou autista, tenho TDAH e altas habilidades, um perfil combinado, do tipo que se costuma chamar de duplamente excepcional. De repente, episódios que eu interpretava como falha pessoal ganhavam coerência. A dificuldade social não era frieza; era uma forma diferente de processar a interação. A oscilação de atenção não era preguiça; era o jeito do meu cérebro distribuir foco.
O que eu não esperava era a parte mais dura. Ao procurar validação desse diagnóstico com colegas psiquiatras, fui descartado. Disseram que era só depressão. Não investigaram a fundo, não me ouviram de verdade, e isso se repetiu com mais de um profissional. Eu, que era médico, que conhecia o vocabulário e tinha a própria história nas mãos, ainda assim não estava sendo escutado. Hoje sei que essa experiência não tem nada de excepcional, e isso é o mais grave: é o fenômeno que a literatura chama de sombreamento diagnóstico, quando a queixa nova é atribuída ao rótulo já existente e a investigação para por aí. Aprendi, na pele, a coisa mais importante sobre escuta: escutar não é esperar a vez de classificar; é deixar a história chegar inteira antes de decidir o que ela significa.
Eu poderia ter aceitado o "é só depressão". Teria sido mais fácil. Mas persisti, continuei procurando, levando a história completa desde a infância, até que uma profissional, ouvindo o quadro inteiro e não apenas o recorte do momento, confirmou o diagnóstico. A confirmação não mudou quem eu era; mudou o que eu podia fazer com isso.
Dessa dor específica, somada ao alívio de finalmente ser ouvido, nasceu um compromisso clínico: ninguém que se sentasse à minha frente passaria pelo que eu passei, ao menos não pela falta de escuta. Transformei isso no Método Espectral Amplo, uma forma de fazer psiquiatria que escuta de verdade, de modo estruturado, baseada em ciência e personalizada para cada pessoa.
A ideia central é simples: avaliar o funcionamento real de alguém, e não apenas conferir a presença ou ausência de critérios soltos numa lista. Na prática, isso significa validar a experiência antes de qualquer rótulo, reconstruir a história de vida desde a infância, usar ferramentas adequadas, como entrevista clínica aprofundada, escalas validadas e a Bateria de Avaliação Cognitiva (CAB), e olhar para a pessoa em várias dimensões ao mesmo tempo: a biológica, a emocional, a social, a sensorial e o contexto de vida. E significa sair da primeira consulta com um direcionamento claro, em vez de um diagnóstico solto e nenhuma direção. Se quiser ver como esses princípios se traduzem no dia a dia da consulta, escrevi sobre como eu atendo.
Há uma pergunta honesta que merece resposta honesta: o que muda no cuidado pelo fato de o médico ser, ele próprio, neurodivergente? Durante anos, a minha estratégia de sobrevivência foi a camuflagem, o mascaramento: imitar a espontaneidade alheia, suprimir reações sensoriais, ensaiar a naturalidade. Funcionava por fora e cobrava por dentro. A ciência hoje é clara sobre esse preço: a camuflagem sustentada se associa a mais exaustão, ansiedade, depressão e a um senso de identidade confuso. Conheço esse mecanismo por dentro, não apenas pelos artigos.
É exatamente por isso que faço questão de ser claro sobre os limites dessa vivência. Minha experiência em primeira pessoa amplia a minha escuta, mas não substitui o rigor técnico, ela o complementa. Ajuda a reconhecer, na fala de quem me procura, o que costuma passar despercebido em avaliações apressadas. Mas o que sustenta a consulta é o método: a entrevista cuidadosa, as ferramentas validadas e a leitura clínica responsável. A vivência abre a porta; o rigor conduz o trabalho lá dentro. Eu nunca projeto a minha história sobre a sua, é a sua história que precisa aparecer.
Essa trajetória deu origem ao livro Nenhum Autismo É Leve (NAEL), um manifesto neurodivergente com base científica. Escrevi-o por uma razão específica: a expressão "autismo leve" costuma significar, na prática, "autismo bem disfarçado". Ela descreve não a ausência de dificuldade, mas a habilidade de escondê-la, e essa habilidade tem um custo alto e silencioso. O livro não romantiza a neurodivergência nem a reduz a um detalhe sem importância; é um convite a levar a sério o que costuma ser minimizado.
Depois da residência, busquei aprofundamento específico e fiz o Mestrado em Autismo pelo Instituto Superior de Estudios Psicológicos (ISEP), em Barcelona, para ancorar a prática em evidência e método, além do que a formação médica brasileira costuma oferecer sobre neurodivergência adulta. Hoje minha prática é dedicada à neurodivergência em adultos: autismo, TDAH, altas habilidades e perfis combinados. O foco está nos casos que escapam de leituras rápidas, como o diagnóstico tardio, o alto custo do mascaramento e o sofrimento funcional persistente, em trajetórias nas quais a pessoa já percebeu que algo importante não vinha sendo compreendido. O atendimento é particular e 100% online, em todo o Brasil.
Minha visão de cuidado é o que se costuma chamar de neuroafirmativa, e quero ser preciso sobre isso. Ela parte de duas recusas simultâneas. A primeira é a de patologizar tudo: ser autista, ter TDAH ou altas habilidades não é, em si, uma doença a ser corrigida; é uma forma de funcionar. A segunda é a de romantizar: reconhecer a neurodivergência como identidade legítima não apaga o sofrimento real que muitas pessoas vivem. Não reduzo o sofrimento de ninguém a falta de esforço, e também não trato a neurodivergência como se fosse só superpoder, porque isso silencia exatamente a parte que dói e que precisa de cuidado. As duas coisas, juntas: validar quem a pessoa é e cuidar do que a faz sofrer.
O registro pode ser conferido na consulta pública de médicos do Conselho Federal de Medicina (CFM).
Se você procura um atendimento que olhe seu funcionamento real, e não sintomas soltos, a consulta pode ser o próximo passo certo.